SkyRoad Serra da Estrela - MedioFondo 2017

Sexta feira ao final do dia estava finalmente na hora de meter a bicicleta dentro do carro e arrancar para a Serra da Estrela. De sexta para sábado fizemos uma paragem no "sprint intermédio" de Arganil em casa da minha madrinha - Casa do Vale. Sábado de manhã continuámos a viagem para Cativelos que seria o quartel general para a prova.

Nesse mesmo dia, à tarde, fomos a Manteigas levantar o dorsal e ver a feira da prova. Ao percorrer a estrada que liga Gouveia a Manteigas ia ganhando um novo respeito pela Serra. Já lá tinha passado antes, mas desta vez ia a pensar "Amanhã vou pedalar aqui... a Serra parece maior que das outras vezes".


Na feira da prova aproveitei para comprar um colete, no qual já andava de olho, e que me deu imenso jeito no dia seguinte. Comprei também um protector solar desportivo do qual, para já, depois de o ter usado durante a prova, fiquei fã, uma vez que mesmo depois de cinco horas em cima da bicicleta não acabei a parecer uma lagosta.

Domingo, dia da prova, estava o despertador a tocar às 6 da manhã. A ideia era sair de casa pouco antes das 7, para ter tempo de fazer a cerca de uma hora de percurso até Manteigas, com calma. Correu tudo como planeado e deu logo para ver que o tempo do lado de Seia não estava grande coisa, ao contrário de Manteigas onde estava um sol fantástico.

A Rita deixou-me na estrada perto de Manteigas e desci o que faltava de bicicleta até ao local da partida.

A compra da camisola da Team Fenix permitia-me sair da primeira box de partida, mas como optei por levar o equipamento do Sporting tive de partir da quarta box, que ficava mais ou menos a meio. Dirigi-me para lá e esperei.

Nunca tinha estado num grupo tão grande de ciclistas e estava com algum receio do momento do arranque. Entre encaixar os pés nos pedais e começar a pedalar devagarinho no meio de tanta gente no pára-arranca estava com receio de eventuais toques que me mandassem ao chão logo no início. Felizmente correu tudo bem!

Depois de uns 15 minutos de atraso e de saber que cortaram a parte inicial com cerca de 7 Km de andamento controlado em Manteigas, foi dada a partida ao som da Conquest of Paradise dos Vangelis. Querem música mais épica para o momento da partida? Confesso que ainda me emocionei um pouco ao passar na partida e dar início à minha aventura.

A primeira subida ia levar-me de Manteigas até a zona das Penhas Douradas. Rapidamente fui sendo ultrapassado por outros ciclistas, mas não ia preocupado. Segui ao meu ritmo, sempre bem disposto, a curtir a paisagem e o ambiente.

Nunca tinha subido vinte quilómetros seguidos, e gostei. A subida ia sempre a uma média suave, conseguia manter uma cadência certinha e ainda ter mais duas ou três mudanças para usar. Tentei gerir a subida de maneira a que fosse com a sensação que se quisesse podia esticar-me mais um bocado mas que era importante deixar esse bocado de reserva.


Ao fim de uma hora e pouco estava a primeira subida ultrapassada.

Ao chegar lá acima, e ainda antes de começar a descer para Seia, tive de parar por duas vezes, pois com o aumento da altitude e da velocidade comecei a sentir algum frio.

A primeira paragem foi para vestir o colete. Um pouco mais à frente e já a entrar pelo nevoeiro, parei novamente para vestir os manguitos, e ainda bem que o fiz. A descida para Seia estava complicada, a temperatura caiu de uns 22º durante a subida para 14º, e foi feita com um forte nevoeiro onde por vezes não se via mais de 5 a 10 metros à frente. Quando o nevoeiro começou a levantar deu para me esticar um bocadinho mais na descida e tirar mais gozo dela.


Na passagem por Seia, parei no abastecimento, que achei bastante bom, entre amendoins, sandes e batatas fritas, havia um bolo (Bolo de Loriga) que era uma maravilha. Só por isso já tinha valido a pena a primeira subida!

Depois de um telefonema para a Rita, arranquei novamente para a segunda parte da prova.

Passado pouco tempo, passo por um ciclista que não ia na prova mas ia equipado à Sporting, da cabeça aos pés, e ao passar por ele digo "Força Sporting!". Ele acena olha para mim, vê que também eu tinha o equipamento do Sporting e dá-me um dos bidons do Sporting que tinha com ele. "Para combinares com o equipamento!". Fiquei surpreendido, agradeci e acabei por seguir um bocado à conversa com ele. Acabei por descobrir que fazia parte do staff da equipa Sporting-Tavira :)

A primeira parte da subida após Seia era mais inclinada que a de Manteigas, mas ainda conseguia ir a um bom ritmo e sem grandes dificuldades, apesar de já só me restar uma mudança mais leve para usar. Até que cheguei à entrada do famoso Adamastor.


O Adamastor é uma subida com cerca de 10 Km e uma percentagem média de 8% na, salvo erro, estrada de São Bento. Não sei como terá surgido a utilização deste nome, mas posso garantir que é bastante adequado às rampas que a estrada apresenta.

Assim que começo o Adamastor passam por mim alguns ciclistas que achei serem os primeiros do Granfondo. Primeiro um ciclista isolado e depois um grupo de uns dez, a um ritmo bastante mais rápido que o meu. Impressionante!

Ia em rampas mais inclinadas, e a achar que estava a ser difícil mas que a manter-se assim não era muito mau. Mas a dada altura apareceram os primeiros avisos de rampas a 14% e tudo mudou!


Nunca tinha feito nada assim, pelo menos durante tanto tempo seguido, com aquela percentagem de inclinação. Horrível, horrível, horrível! Ia a cerca de 7 km/h, chegando ao ponto de ir aos esses na estrada, tudo para tentar não pôr o pé no chão, apesar da vontade de o fazer ser cada vez maior.

Tenho ideia de que a dada altura a subida aliviou ligeiramente, pelos vistos, olhando agora para o gráfico. Até teve uns metros de descida apesar de eu não me lembrar deles.

Sei que a subida voltou a empinar para uns 12 ou 14% e que nas placas na estrada, para além da percentagem de inclinação dizia 2 Km. Eu bem tentei mas já não dava mais. Ia a 5 Km/h com uma cadência de pedalada de 40!!! Olhava para a frente e via a estrada bastante inclinada, olhava à volta e só via montanhas bem altas onde no cimo estava uma estrada. Pensei "não pode ser por ali, é demasiado acima em relação ao ponto onde estou", mas a verdade é que via cabeças a passarem por lá!

Acabei por ter de pôr o pé no chão e ir a empurrar a bicicleta. Não me lembro da última vez em que tive de fazer isto. Acabei por fazer cerca de 1 Km a pé!

Quando montei novamente estava perto do abastecimento (mais bolo de Loriga nham nham) e cerca de 500 metros depois do abastecimento estava o final do Adamastor. Foi também aqui que estavam a Rita e a Tatiana já há bastante tempo à minha espera.

Neste ponto estava também um abastecimento de água dos Bombeiros e consta que toda a gente que lá parava só dizia "FOD*-**"! Foi aqui que eu disse "Já estou arrependido de me ter inscrito também na prova das Aldeias do Xisto" ao que um companheiro ciclista que também estava no abastecimento diz "É pior que esta, não são subidas tão longas, mas tem mais sobe e desce"... Foi animador (not)!

Faltavam cerca de oito quilómetros para o final. Supostamente estes 8 Km finais já seriam mais fáceis, inclusivé com alguns momentos de descida, mas eu já estava de rastos e tudo me custava a fazer. Foi mais ou menos nesta altura que vi pela primeira vez a Torre. Ainda lá ao fundo, mas foi o suficiente para me emocionar novamente e convencer-me que ia conseguir.


Estes quilómetros finais acabei por fazer na companhia da Rita e da Tatiana, que iam passando de carro, paravam, gritavam, e iam parar um bocado mais à frente. Ia ajudando os quilómetros a passar e quando dou por isso, estou a chegar ao último quilómetro da prova. Local onde tinha deixado o carro estacionado no último ano que fui ver a chegada da Volta à Torre.

Aqui parei novamente e estive ainda uns 30 segundos parado. Ia conseguir chegar ao fim. Tinha sido a muito custo, mas ia conseguir chegar à Torre, tal como desde miúdo via fazerem na Volta a Portugal!

Não ia ser como eu tinha pensado, sem ter de pôr o pé no chão, mas estava a chegar lá!

A rampa final até à meta ainda custou um bocadinho. Já nem me consegui levantar da bicicleta, mas cheguei lá acima, completei o Mediofondo, subi à Serra da Estrela!


Cortei a meta e uma simpática voluntária pôs-me logo a medalha ao peito. Eu devia estar mesmo com mau ar, pois ela insistiu várias vezes a perguntar-me se estava bem e se não queria que ela me fosse buscar uma sandes e sumo que estavam a dar no final.

Depois de a convencer que estava bem, apesar das dificuldades em passar a perna por cima da bicicleta para desmontar, fui buscar o tal abastecimento e sentei-me no chão, a comer e finalmente a começar a relaxar.

Depois da meta já não fui capaz, nem tinha tempo de descer para Manteigas de bicicleta. Desci só uns 200 metros até onde a Rita tinha estacionado, meti a bicicleta no carro e ela foi a conduzir de volta a Gouveia onde tínhamos ficado. O meu cansaço era tal que em pouco tempo adormeci!

A minha preparação era claramente insuficiente, mas eu tinha consciência disso. Gostei muito da prova mas foi duro, muito duro, como nunca antes tinha feito. Acredito que haja rampas piores e subidas mais duras, mas para mim aqueles 10 Km do Adamastor foram demolidores e uma novidade a nível de percentagem de inclinação durante tantos quilómetros.

Não consigo descrever a sensação de ver uma coisa daquelas pela frente. A estrada a serpentear pela montanha, sempre, sempre a subir. Sem dúvida, um cenário lindíssimo, mas muito duro.

A Minha Prova:

7 comentários:

  1. Muitos parab3ns, João! Essa subida não é nada fácil, deve ter sido uma emoção incrível concluí-la, não foi?
    Notei pelo teu gráfico que essa parte que fizeste de Loriga a Seia passa exactamente pelos mesmos locais dos últimos kms do OMD (Lapa dos Dinheiros, São Romão...) embora tu sigas sempre pela estrada, obviamente!
    Vais ver que daqui a uns dias já estás outra vez satisfeito por te teres inscrito para as Aldeias do Xisto. ;)
    Boa recuperação!
    Beijinhos

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    1. Obrigado Rute. Sem duvida, estes desafios mais difíceis são os que mais gozo dão quando ultrapassados.

      Gostei bastante do percurso entre Seia e Loriga, íamos pela estrada "recortada" na Serra, e apesar de ser a subir ainda era bastante acessível.

      Quanto às Aldeias do Xisto... Ao fim da tarde já estava com vontade de a fazer novamente :)

      Beijinhos!

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  2. Muitos e muitos parabéns!
    Relato emocionante e emotivo.
    Fiquei com a sensação que custou um bocadito... (brincadeira irónica :) )

    Boa recuperação e em força para as Aldeias do Xisto (relembra-me a data)

    Grande abraço!

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    1. Obrigado João.

      Uns dias depois da prova já começo a achar que não foi assim tão difícil :)

      As das Aldeias do Xisto vai ser a 10 de Setembro.

      Abraço

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  3. Muito bom! Muito simpático esse teu colega que no abastecimento te disse que ias sofrer mais ainda na Lousã ahah Parabéns!

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    1. É sempre moralizante ouvir estas coisas, especialmente imediatamente após concluir a subida mais dura que alguma vez fiz.

      Abraço.

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  4. Só cá vim comentar por causa do teu equipamento :)

    Muito bom, João, Parabéns!

    Abraço

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